Terça , 20 de Fevereiro de 2018
 
Coluna de Valci Barreto
 

"O povo gosta de luxo".
Uma frase do Joãozinho Trinta ecoa por todos os cantos deste nosso Brasil, dada como resposta aos intelectuais que recriminavam o luxo que o grande artista carnavalesco levou para as escolas de samba carioca: “Pobre gosta é de luxo, quem gosta de pobreza é intelectual.”
 
Todos os anos, a frase me vêm à lembrança quando ligo a Tv e vejo, notadamente intelectuais, comentando que os grandes blocos, os grandes camarotes afastaram o povo da folia.
 
É um lenga lenga sem fim a defesa de que “pobre não pode mais brincar nas ruas da Bahia”. As teses, defendidas por alguns entrevistados em nossos rádios e tvs, vão das propostas para acabar com camarotes, retirada de cordas que envolvem os blocos e financiamento de trios pela Prefeitura ou entidades privadas que “só querem encher os bolsos de dinheiro.”
Claro que não fico mais do que cinco minutos ouvindo tais “defensores do povo.” Comporto-me como alunos e professores de uma famosa entidade de ensino do sul do pais, e penso, sem medo de errar:” já sei de tudo”; e mudo de canal .
 
Uma outra cena que me incomoda , como admirador da grande festa, vem das ações em defesa dos cordeiros que obrigam as entidades carnavalescas a fornecerem, a cada carnaval, um item a mais em favor destes profissionais tão importantes para os blocos.
Ninguém pode ser contra benefícios em favor dos cordeiros ou de quaisquer outros profissionais de qualquer área . Porém, acho um absurdo as exigências serem impostas às vésperas do carnaval. Parece que este pessoal já fica de prontidão para lançar suas armas e iras contra os “exploradores da mão de obra humana” no momento em que sabe que a mídia marcará sua presença. Como se diz no vulgar, parece querer “ganhar no
grito,” já que não sabem cantar, nem jogar futebol para estrelar nestas áreas tão atraentes para o nosso povo. Até ações policiais já foram utilizadas para obrigar os blocos a cumprirem determinações criadas de ultima hora pela burocracia e políticas de momento.
 
Ninguém pode ser contra os benefícios que vem sendo criados em favor dos cordeiros. Algumas exigências parecem vir de quem nunca viu um cordeiro atuando no carnaval, quer aparecer ou não tem responsabilidades com as atividades empresariais relacionadas ao carnaval. Muitas obrigações são criadas às vesperas das festas, sem a mínima sensibilidade com os prejuízos que podem causar a terceiros, quando os contratos, os mais diversos, já foram estabelecidos , muitas vezes há mais de um ano, segundo as regras então vigorantes. Como estes órgãos ou entidades não respondem por atos impensados, rendem-se os prejudicados, para não piorar. No mundo capitalista, do qual fazemos parte, não se monta negócios para dar prejuízo. O capital não tem amor nem pátria. E vão sempre preferir festas que dão lucro. Se o carnaval der prejuízo, ele vai para outra festa ou outra atividade que proporcione o lucro.
 
O carnaval, há muito tempo deixou de ser festinha de amador. É negócio. E grande negócio. A diferença é ser um negocio que dá alegria a milhares de pessoas que pagam porque podem, porque querem. E se pagam, querem ter conforto, segurança, boa musica, bons cantores, cordas, cordeiros e camarotes, itens estes cada ano mais caros. Antes, os artistas viajavam em carros baratinhos, muitos deles aos pedaços. O mesmo acontecia com os grandes craques da bola. Nos anos sessenta, um grande jogador de futebol, excetuando Pelé, saia na capa da Revista do Esporte, quando adquiria um fusquinha. Nossos artistas e atletas de hoje andam de avião, alguns deles em jatinhos particulares.
 
Tirem das ruas os grandes artistas, os cordeiros, os abadás, belos e caros , e tentem fazer o carnaval sem corda, de graça para o povo, e esperem o resultado. Simplesmente será o fim da maior festa de rua do planeta da qual nós devemos nos orgulhar, mesmo vendo “milionários ganhando com o carnaval.”
 
Ora gente, milionários ganham com qualquer coisa: aço, ferro, construção, futebol até com religião, que deveria ser a atividade mais pura, divina, sem grana no meio.
Falando de futebol, os campos, (talvez por isto o nome campo) antes não tinham muro nem grama. Criaram o muro , grama, meias, chuteiras, arquibancadas, cadeiras numeradas e, naturalmente, passaram a cobrar ingresso para pagar tudo isto e mais os impostos. Há muito que ninguém joga , nem deve, por amor à camisa. Este romantismo acabou.
E não adianta a choradeira de quem não é bom de bola, de quem não canta bem, de quem não investe nem ganha os milhões do carnaval.
 
Não creio que estes críticos de quem ganha dinheiro no carnaval, vão querer derrubar o Maracanã, nem ver Adriano , Ronaldinho Gaucho jogar de graça para eles. Ninguém pensa nisso, nem mesmo nos dias dos grandes clássicos, quando os cambistas conseguem vender um ingresso por três quatro vezes mais do que o preço normal.
 
A diferença para o carnaval é bem menor: mesmo de longe, o folião, ouve Bel , Ivete , Claudinha Leite. Ouve e vê seus ídolos, mesmo sem pagar, ainda que fora das cordas. Comparando, o mesmo prazer de ver as pernas e os gols de seus ídolos do esporte bretão, o torcedor não o tem se não pagar. Isto porque um muro bem mais alto do que o formado pelos cordeiros lhe impede a visão. E, muitas vezes, mesmo com dinheiro no bolso,não pode ultrapassar os muros porque os ingressos se esgotaram.
 
O povo quer Ivete, Bel, Claudinha Leite, Adriano, Ronaldinho Gaucho, mesmo com cordeiro, muro e pagando, seja qual for o preço E nunca vão se importar para onde vai a grana: se para artistas, funcionários ou governo. Ele paga pelo prazer. Assim foi e será.
Cabe ao poder publico fiscalizar, criar os benefícios para torcedor, folião, cordeiros, artistas.
 
E que o poder publico, como já faz a entidade privada, estude e proceda às exigências que lhe couber, inclusive em favor dos cordeiros, durante todo o ano e não apenas de forma açodada , com medidas de impacto, às vésperas da festa, criando insegurança e incerteza para tantos. Não podemos abraçar a ditadura, principalmente quando o assunto for carnaval e futebol. Por principio, os intelectuais não podem ser favoráveis a ditaduras, nem mesmo que seja para beneficiar esta ou aquela profissão; mesmo porque o Estado dispõe do ano inteiro para estudar e criar os benefícios para algum profissional ou entidade.
 
*Valci Barreto, advogado, Procurador da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Colaborador do jornal e site Folha do Recôncavo (www.folhadoreconcavo.com.br); editor do bikebook.com.br, colaborador do muraldebugarin.com

Publicado em 09/02/2010 ás 02:46

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