Segunda , 19 de Fevereiro de 2018
 
Coluna de Átila Santana
 

O Adeus a Pretinho

 

O dia 20 de novembro de 2012 tinha tudo para ser um dia normal, como outro qualquer.
Estava indo tudo muito bem. De repente, uma notícia se espalhava como um rastilho de
pólvora: “Pretinho morreu”. O dia mudou. A cidade parou. Parecia feriado. As pessoas
atônitas, estupefatas corriam de um lado para outro querendo averiguar a veracidade da
informação. Meus telefones não paravam de tocar. Todos sabiam da minha relação pessoal
de amizade com a família. Coube a mim o doloroso papel de confirmar aos amigos o óbvio
ululante.

Aristides Milton dos Santos, ou simplesmente Pretinho, era um homem simples, de voz mansa
que todos gostavam. Visitava todos os parentes do centro da cidade todos os fins de tarde. O
bolo aos sábados na casa da sobrinha Lenilza, na Nova São Francisco, era sagrado. Os abraços
de feliz aniversário eram disputados no tradicional ‘café da manhã de Pretinho’, oferecido pela
família todo dia 7 de setembro. Todos queriam cumprimentá-lo. Vivia rodeado de amigos.
Pretinho era o cara.

Há muito não se via um velório tão disputado em São Francisco do Conde. Dentre os presentes
destacavam-se o ex-vereador, vice-prefeito e prefeito interino de Candeias, meu colega
radialista Manoel Amorim, o advogado, professor e ex-vereador José Carlos Araújo Lima,
PIPIA, amigos de longas datas, que visivelmente abalados, tentavam disfarçar a tristeza, mas
era inútil. O vice-prefeito, Dr. Evandro Almeida, os ex-prefeitos Antonio Pascoal e Osmar
Ramos, de quem era amigo, estiveram presentes, todos sorumbáticos com a perda. Francisca
Esquivel, a esposa, parecia não acreditar no que estava acontecendo. Perdia um companheiro
de décadas. A cidade cobriu-se de luto. A educadora Ana Clara Ferreira Santos, Clarinha,
amiga e comadre, que sofrera a segunda perda na família em três meses (a primeira foi o tio-
pai José Ferreira de Souza, Zé da Luz), suspendeu as aulas na Escola Clara Visão, em sinal de
luto. “É doloroso por de mais, mas Deus não dá um fardo que a gente não possa carregar”,
dizia aos prantos. Santo Estevão, bairro que tem uma das vistas mais belas da Bahia, e serviu
de berço para a família Santos, foi tomado pela tristeza. Cláudia, outra sobrinha, dizia em
lágrimas, que “Pretinho acostumou a gente muito mau...”, fazendo referência ao tratamento
carinhoso com a família e os amigos. E de fato ela tinha razão. Foi doloroso vê-lo pela última
vez, num caixão. O corpo de Pretinho foi envolto numa camisa rubro negra. Sobre o féretro
uma bandeira do Esporte Clube Vitória. Os amigos foram ao enterro vestidos com a camisa do
time do coração em sua homenagem. No meio deles um ‘gaiato’ vestia uma camisa do Bahia.
Era o contraponto. Nem depois de morto escapara do escárnio de um amigo tricolor. Políticos,
comerciantes, músicos, estudantes, todos foram prestar as últimas homenagens, dar o adeus.
O comércio arriou as portas, o Hospital Célia Almeida Lima quase parou para os funcionários
(àqueles que podiam sair) acompanharem o cortejo fúnebre.

É o ciclo da vida. Em 7 de setembro de 1947 nascia àquele que seria mais tarde uma referência
para a família; 20 de novembro de 2012, como disse Getúlio Vargas na famosa Carta
Testamento, sai da vida para entrar para a história. Deixou na memória dos que o conheceram
boas lembranças, e muita saudade. Só quem conviveu com o ‘de cujus’ sabe o que perdeu.

Átila Santana

Publicado em 22/11/2012 ás 14:48

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