Quarta , 20 de Setembro de 2017
 
Coluna de Jolivaldo Freitas
 

Ao vivo do 2 de julho

  

Gosto demais de participar dos festejos do 2 de julho. Ainda mais que sempre encontro antigos colegas jornalistas, que de tão antigos sempre tenho a impressão que cobriram ao vivo as lutas pela independência da Bahia. O desfile, o cortejo, a festa este ano teve um sabor mais adocicado. Mais romântico. Mais emotivo. Fazia tempos não via tanto patriotismo, tanta paixão, tanto amor pela memória dos nossos heróis.
 
Entendo que o orgulho do baiano, o sentimento cívico e a vontade de cantar e gritar o hino ao 2 de julho foi exacerbado pelo que se viu pelas ruas nas últimas semanas. O povo estava com o grito preso na garganta e este foi o momento de se mostrar que todos estão atentos ao que existe de errado e que é preciso mudanças urgentes e que ninguém está para ser engabelado por reforma na Constituição ou plebiscito malandro.
 
 Foi muito bom ver por lá a garotada do Movimento Pelo Passe Livre; os anarquistas misturados ao Filhos de GFhandy e ao bloco da paz. Os médicos com suas mensagens e os professores putos da vida. Ver a alegria dos meninos com suas fanfarras coloridas, descompassadas mas entusiasmadas. Pouco importa que o piston e o chupa-catarro estavam desafinados e que a bateria ia para um lado e o pífano para outro. Neste instante o que vale mesmo é a intenção.
 
Legal também foi ver a bateria do Muzenza dando um banho de sonoridade no Largo do Pelourinho. Achei a batida mais interessante e harmônica que a do Olodum. Mas outros grupos se revezavam nos tambores. Os gringos, muitos dos quais botamos seus bisavós para correrem, como o fizemos com os holandeses e franceses, sem entenderem nada, mas gostando do barulho e das fantasias.
 
Um deles me perguntou qual era mesmo a do índio que seguia na carroça e eu expliquei que representava os nativos que participaram das lutas pela independência, mas não expliquei que foi uma luta diferente da carnificina que eles tinham ouvido falar do próprio passado de lutas deles, lá pela Oropas, States e Paris.
Mas tem coisas que só acontecem nos festejos do Dois de Julho. Os militantes do PT saíram com tudo, seguiam bonitinhos e organizados até que decidiram se apropriar do grito da torcida brasileira que incentivou os jogadores da Seleção Brasileira na final contra a Espanha. Quando o pessoal do PT entoou “Ô, o PT voltou, o PT voltou, o PT voltou” a galera que estava no Terreiro de Jesus retrucou: “Ô, o PT roubou, o PT roubou, o PT roubou”. O secretário Sérgio Gabrielle saiu de fininho.
Mas os petistas não se conformaram e trocaram o grito para “O PT voltou às ruas...” E uma os adversários completavam: “A roubalheira continua...”. Daí que nas proximidades do restaurante Cantina da Lua o pau ia comendo, mas por sorte os PMs estavam perto e conseguiram separar os contendores. Cada um com sua filosofia ou visão partidária pode demonstrar seus valores. Muita democracia sem gás de pimenta nem lacrimogênio.
 
Uma mulher mandou para cima do governador, pelo que parece, um copo plástico com água. Refrescou Wagner que suava e resfolegava pelo cansaço do caminho, mas foi presa. Onde já se viu agredir o homem. O governador não se abalou. Coisa mais feia fez a moça. ACM Neto encarou as vaias com o mesmo sangue frio que caracterizava o seu avô. O secretário municipal José Carlos Aleluia foi mesmo macho. Andou todo o percurso e sozinho encarou a multidão na Praça da Sé quando o cortejo já acabava no final da manhã, em sua primeira parte.
 
Mas, o que me chamou a atenção foi a ausência dos gays. O pessoal da Marcha das Vadias estava lá com seus sutiãs fora de moda protestando e mandando Feliciano toma lá nele. Mas os gays andam recolhidos aos armários. Não os vejo em bloco nas manifestações e eram raros no desfile do 2 de julho. Talvez estejam guardando forças para a Parada Gay.
 
E também não vejo os idosos nas ruas, nem nas manifestações nem no cortejo, com seus cartazes buscando a defesa dos seus direitos. Um colega escroto argumentou que se velho sai em passeata vai faltar vaga nos cemitérios. Coisa mais infeliz de se dizer. Salve o 2 de julho e que nunca perca seu sentido de um verdadeiro vaudeville à baiana.

Publicado em 04/07/2013 ás 18:34

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