Quarta , 21 de Fevereiro de 2018
 
Coluna de Jordan Campos
 

Vozes do Alm

 Uma história real acontecida na minha clínica – Uma mãe assustada e chorando me liga pedindo ajuda para seu filho de 9 anos. Marco uma entrevista. No dia marcado minha secretária avisa que o menino não vai poder subir, que fez um escândalo na recepção e que a mãe quer falar comigo. 

Desço as escadas e encontro uma senhora jovem e aflita. Ela diz:
- Jordan, não aguento mais isso. Ele era uma criança normal, linda inteligente. E de dois meses para cá entrou em surto, com apenas 9 anos!!! Ele diz escutar vozes que botam medo nele e pedem para ele se jogar da janela, quase não dorme mais, saiu da escola e está sendo acompanhado por uma psiquiatra famosa daqui que passou três medicamentos fortíssimos e até agora nada. Ele estava bem aqui te esperando, mas quando desceu a sua paciente de antes e chegava a vez dele, ele começou a gritar e foi para o carro - disse que não quer mais ser atendido, que “a voz” não deixa.
- Minha senhora, calma, ele está no carro?
- Sim, desculpe por isso, ele chegou a me bater quando eu quis trazê-lo.
- Ok, vamos ao carro.
- Você vai pegar ele no carro? Melhor não, ele está violento!!!

Cheguei ao carro e vi um menino encolhido em pânico.
- Oi, sei que não está tudo bem, posso me aproximar? – Perguntei.
Ele não reagiu, mas seus olhos pediam ajuda. Eu entrei no carro, e o convenci a subir até minha sala quando falei simplesmente:
- Eu tenho certeza que sei o que está acontecendo com você, já vi isso antes.

Na minha sala, eu perguntei:
- Me diga, o que está sentindo agora?
- A voz, a voz... Ela não me deixa – disse o menino olhando fixamente para mim.
- Ela, a voz está aqui agora?
- Sim.
- E o que ela está dizendo?
- Ela diz para eu não te escutar, que você vai me enganar.
- Você acha que eu vou te enganar?
- Acho que não.
- Ótimo. Você quer resolver isso agora?
Ele apenas balançou a cabeça positivamente.

- Olhe na minha prateleira, está vendo aqueles bonequinhos? – Vá lá e pegue “a voz” e traga aqui na mesa.
Os olhos do menino arregalaram e rapidamente ele foi ao encontro daqueles trinta e cinco bonecos. Pegou o boneco vermelho com rabo e chifres e colocou na mesa.
- Ele é a voz?
- Sim – Respondeu ele confiante e apreensivo. Foi quando um rastro fino de sangue desceu da sua narina esquerda e ele limpou, pensando ser secreção produzida do choro. Eu não falei nada sobre isso e prossegui rapidamente:
- Ele, a voz, o boneco... Está dizendo o que?
- Ele está gritando, e eu estou com medo.
- Olhe para a minha mesa, está vendo aquele durex? O que você pensa?

Ele sorriu pela primeira vez, levantou pegou o durex, puxou uma tira de uns 20 cm e enrolou na boca do boneco, fazendo dois círculos na cabeça do diabinho. Ele sentou. Olhou. E disse:
- Ele calou a boca – disse olhando com ar de vitória.
- Olhe firme para ele e diga que nunca mais ele falará nada. Diga e repita que você não sabe por que ele veio nem quem é ele ou o que quer – e nem quer saber - mas que agora, simplesmente por ele ter calado a boca ele entende que quem manda é você.
-Falei.
- E agora o que você quer fazer com ele?
O menino apontou para a lixeira.
- Ótimo, faça isso. Vá em frente.

Ele levantou, pegou o boneco com força abriu a lixeira com os pés e jogou com força o diabinho lá dentro, soltando um ar de desabafo em seguida.

(...) resumindo... Tudo é possível quando se trata da mente humana e do que ainda desconhecemos. Nossas crenças são nossas maiores prisões. Hoje faz um ano que ele entrou aqui na minha clínica e recebi uma mensagem de sua mãe dizendo que nunca mais ele escutou alguma voz, que a médica tirou os remédios e que ele estava muito bem e fez um desenho meu na escola e que depois traria aqui. A medicina não explica, a psicologia pode chamar de fenômeno, a religião chamaria de neo-exorcismo... Eu chamo de sensibilidade e entrega, chamo de Ordens do Amor.

Publicado em 17/09/2013 ás 10:26

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