Quarta , 21 de Fevereiro de 2018
 
Coluna de Jordan Campos
 

Como ter SEXO de qualidade com o mesmo parceiro por toda a vida?

 Será possível uma resposta concreta para esta pergunta? Talvez sim... Vamos refletir várias coisas juntos e atualizar algumas informações. Talvez este texto seja libertador e esclarecedor para você. Passe ele ao seu parceiro, amigo, ou até para os seus pais ou filhos. Vou iniciar com algumas perguntas que muitos estudos tentam solucionar:
- Por que o bom sexo geralmente desaparece, mesmo em casais que continuam a se amar? Por que uma boa intimidade não é garantia de um bom sexo, ao contrário do que a maioria acredita? E quando se ama, como é o sentimento? E quando se deseja, qual é a diferença?

Durante 5 anos eu fui aos palcos com um talk show chamado de “Não Discuta a Relação e Seja Feliz”. Meu objetivo era levar um terapeuta, eu mesmo no caso, a fazer refletir sobre como resolver os enigmas das relações, sem a famosa “DR” - pelo entendimento de coisas que estavam aparentemente invisíveis nos comportamentos e desejos de homens e mulheres, mas altamente impactantes e explícitas na sensação de cada qual na parceria. Neste tempo aumentei o número de terapias de casais em meu consultório e minha própria vida pessoal pipocou em conjunto como se houvesse uma orquestra regendo isso tudo – um bom terapeuta deve ter o maior número de experiências duras e agudas - eu não pregava isso antes, mas agora, depois de tudo, esta “verdade” está tatuada na minha alma. Quem assistiu às minhas apresentações lembra que eu dava três dicas para uma relação dar certo – tinha que ter insegurança, ausência e surpresa. Opa, opa... Como??? Pois é, mas voltaremos a isso no caminhar deste artigo-texto.

Comecei a tentar entender e buscar incessantemente sobre a natureza do desejo erótico e seus constantes dilemas no amor moderno – o mito romântico. Como terapeuta eu sei que 90% dos conflitos gerais têm fundo em problemas de sexo, relacionamento, aceitação e exclusão afetiva – seja dos pacientes os de seus antepassados. Eu viajei pelo mundo minha gente, tive contato com a Ásia Oriental, Europa, Leste Europeu, América do Norte e Central, e o que notei é que em todo lugar onde o romantismo entrou, parece existir uma crise do desejo. Uma crise de já se possuir o que se quer , e acho que esta é a primeira vez na história da humanidade que tentamos entender e experimentar a sexualidade por um longo período, não porque queiramos reproduzir dez filhos, e não porque é exclusivamente um dever conjugal da mulher. Esta é a primeira vez que queremos sexo que ao passar do tempo ainda tenha prazer e conexão baseados simplesmente no desejo e fidelidade;

O que mantém então o desejo, e por que é tão difícil mantê-lo à longo prazo? De um lado, nossa necessidade de segurança, previsibilidade,proteção, dependência, confiança, permanência, todas essas experiências fundamentadas das nossas vidas que chamamos de lar. Porém temos também uma necessidade igualmente forte, homens e mulheres, por aventura, novidade, mistério, risco, perigo, desconhecido, inesperado, surpresa. Conciliar nossa necessidade por segurança com a nossa necessidade por aventura em um relacionamento, ou o que chamamos hoje de um casamento apaixonante, costumava ser uma contradição. Hoje em dia queremos que nosso parceiro continue a nos dar tudo isso, e, além disso quero que seja meu melhor amigo e meu confidente, meu amante apaixonado - Então nós basicamente pedimos a uma pessoa que nos dê o que antes uma rede inteira de relacionamentos inteiro nos fornecia. Dê-me merecimento, identidade, continuidade, mas também transcendência, mistério e admiração, tudo junto. Dê-me conforto e limite. Dê-me novidade e familiaridade. Dê-me previsibilidade e ao mesmo tempo surpresa. E achamos que acordos, brinquedos eróticos e lingerie irão nos salvar. Não vão.

Qual a relação entre amor e desejo? Como se relacionam e como se chocam? Porque aí mora o mistério do erotismo e talvez desta conversa aqui toda. Veja bem, se há um verbo que vem junto com amor é o "ter". E um verbo que vem junto com desejo é o "querer". No amor, nós queremos ter, queremos conhecer o amado totalmente, possuí-lo. Queremos minimizar a distância. Queremos diminuir o espaço. Queremos neutralizar as tensões. Queremos proximidade. Mas no desejo, temos a tendência de não querer voltar aos lugares em que já estivemos. Conclusões precipitadas não mantêm nosso interesse. No desejo, queremos uma ponte para atravessar. Ou seja, o fogo precisa do ar. O desejo precisa de espaço.

Somos os únicos animais que têm uma vida erótica, o que significa que a sexualidade foi transformada pela imaginação humana. Somos os únicos que podem fazer amor por horas,ter momentos de pura alegria, orgasmos múltiplos, e sem tocar em ninguém, apenas com a imaginação. Nós podemos insinuar. Não precisamos fazer. Neste paradoxo entre amor e desejo, o que parece ser desconcertante é que os ingredientes que nutrem o amor - interdependência, reciprocidade, proteção, preocupação, responsabilidade pelo outro - são os mesmos que podem sufocar o desejo. Porque o desejo vem com uma série de sentimentos que nem sempre são os favoritos do amor: ciúmes, possessividade, agressão, poder, domínio, safadeza, ofensa. Basicamente muitos de nós se excita a noite pelas mesmas coisas que se manifestam contrárias durante o dia. Bem, a mente erótica não é muito politicamente correta. Se todos tivessem fantasias em uma cama coberta de rosas, não teríamos essa conversa aqui – e tava todo mundo brochado. Mas não, em nossa mente existe uma série de coisas acontecendo que nem sempre damos conta de como dizer à pessoa que amamos – já pensou se seu parceiro(a) tivesse um leitor de mente na hora em que estão fazendo sexo? Será que você aguentaria a verdade? Achamos que amor vem com desprendimento e na verdade o desejo vem com uma dose de egoísmo no melhor sentido da palavra: a habilidade de estar conectado consigo mesmo na presença do outro. E aí, chegou até aqui no texto? Ufa...

Os casais que conseguem ter esta inteligência erótica em longo prazo são aqueles que administram muito bem aquelas três regrinhas lá do começo que falo nas palestras e talk shows. Eles têm a boa insegurança de saber que o seu parceiro não os pertence e precisa ser reconquistado sempre, eles não colocam uma aliança como posse, mas como links de suas luzes e sombras e continuam a querer trocar aquela aliança de tempos em tempos. Não é uma coisa unilateral, e sim uma maturidade erótica conjunta. Eles também entendem que as preliminares não começam apenas cinco minutos antes da relação sexual. As preliminares começam no fim do último orgasmo. Eles também entendem que o espaço erótico não é começar a acariciar o outro. É criar um espaço onde você deixa de lado o que sua mãe jamais poderia saber que você sabe ou faz ou fala. Estes casais entendem a sagrada importância do espaço que gera o oxigênio que faz o fogo pegar. Permitem o mundo de cada qual e fidelizam um mundo terceiro, onde saindo cada qual de seu mundo possam se encontrar lá, aí é surpresa na Terra do Sempre!!! Os casais eróticos entendem que a paixão vai e volta, não acaba em dois anos – a paixão é um gráfico bipolar, e o amor um gráfico constante – Lua e sol. Então, enquanto a lua dorme o sol chega e vice versa, mas o céu nunca está vazio. Eles sabem que conseguem ressuscitá-los haja o que houver - e sabem como trazer cada um de volta porque eles desmistificaram o grande mito do amor romântico, e entraram no jogo moderno, acredito que estamos falando aqui, assim como já versamos sobre inteligência emocional, inteligência multifocal, espiritual... Numa nova modalidade chamada de Inteligência Erótica. O novo Q.I. que faz os relacionamentos com bom sexo durarem.

Obrigado pela paciência da leitura. Obrigado a Esther Perel por falar do que já falo há anos como novas evidências científicas e me ajudar a reconstruir este texto, que é seu também.

Jordan Campos é terapeuta clínico, especialista em transtornos ansiosos, trauma e terapia de casais. É também escritor, conferencista e músico.

Publicado em 09/01/2014 ás 20:57

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