Terça , 20 de Fevereiro de 2018
 
Coluna de Marli Gonçalves
 

RUGAS

Caramba! Do jeito que andam as nossas preocupações, seremos um país de enrugados. Andei observando as ruas e todo mundo tá franzindo a testa. Isso é sério, e quer dizer muita coisa

Cada um tem a sua própria forma de observar as coisas. Eu tenho várias. Uma das principais é observar nas pessoas as linhas de expressão, habilidade que desenvolvi na profissão de repórter e que sempre me foi muito útil. Assim descobria, raramente errei, se o cara estava mentindo, se procurava omitir algo, ou se estava dizendo uma coisa, mas querendo falar outra. Virei expert, o que me proporcionou até alguns furos de reportagem.

Nesses dias andei observando meu rosto no espelho e encontrei uns vincos novos que, decididamente, não me caem bem, nem se fossem passados a ferro como fazíamos antigamente com as roupas. Sai correndo para a rua e descobri, até - confesso - meio aliviada - que eu não era a única. Quase todo mundo anda enrugando a testa, parecendo sim preocupado com alguma coisa. Pior: realmente preocupado. Daí, ganhando umas pregas a mais.

Viramos um país de preocupados. Repara só. Estamos apreensivos com um possível vexame internacional na tal Copa, mas isso é o de menos. Veja que estamos preocupados quase literalmente com tudo, e que não há ginástica facial que resolva, tal a frequência e o tamanho das possibilidades que nos amedrontam. 

Água. Luz e energia. Dinheiro. De tudo quanto é lado, preocupação, de cima, debaixo, do lado direito e do lado esquerdo. Eleições e falta de oposição. Dinheiro. Se chove ou não chove, e se chove onde precisa. Dinheiro. Mercado parado e governo assobiando. Inflação tacando o terror. Dinheiro.

Crises políticas internacionais e o governo assobiando. Crise política nacional e o governo assobiando, como se fosse superior a esseszinhos que os criticam. Instituições em queda livre, e com choque entre os poderes. E o Governo?lalalalá, fiufiu, lalalalá. 

Insegurança geral e generalizada, com a vida valendo menos que mil réis, gente guiando pelas ruas e estradas à procura da morte e querendo levar mais alguém. Possibilidade de racionamento de água; consequentemente, de energia, o que apaga pelo menos metade das atividades. Clima doido, sem infraestrutura adequada; sem qualquer infraestrutura em alguns casos. 

A gente agora acorda e reza: para o telefone funcionar, para a internet funcionar - esta, a cada dia mais importante e indispensável, mesmo que ainda inacessível a grande parte da população. Não se fala com mais ninguém, é tudo telemarketing, aperte 1, 2, ou... lá pelas tantas, depois dos protocolos de números gigantescos, o 9, para falar com um de nossos atendentes. Não posso esquecer de citar os vírus! Sim, os vírus. Agora além dos que a gente pegava por aí, na comida, patatipatatá, gripe, dengue, malária, temos de nos preocupar - e muito - com os vírus de computador, com as bactérias virtuais, com a espionagem pronta a nos roubar senhas, dinheiro, documentos, clonar nossas coisas, infiltrar gastos em nossas já combalidas contas.

Ah, tem o ar - nos centros urbanos, há dias, quase irrespirável. Nisso, a saúde, lembra dela?- dança. E aí? Bem, aí, se vira! 

Como pude esquecer? Você deve ter filhos. Se a resposta for positiva, sinto muito. As rugas se mudarão para seu rosto com mala e cuia. Pelos supracitados motivos, mais Educação, etc, etc. 

Assim, cumpre-me informar que essas rugas se chamam glabelares. Porque ficam na glabela - assim chama esse meinho entre as sobrancelhas. Você está lendo direito? Porque se estiver apertando os olhos vai ganhar ainda outras, os famigerados pés-de-galinha, aqueles que se mudam para o cantinho dos olhos. Descobri uma novidade: as rugas "código de barra". São as que ficam entre o nariz e a boca.

E como tudo pode piorar, tem mais: não esqueça do bigode chinês, dingling, descrito pelos médicos como "parênteses ao redor da boca". E tem as rugas, que eu chamaria de ventríloquo, mas que eles chamam de linhas de marionete.

Desculpe se trouxe mais uma preocupação para enrugar sua cara. Em compensação deixei de citar um monte de assuntos que andam nos atazanando e torrando nosso saco. Aliás, nos trazendo insônias que propiciam bolsas debaixo de nossos olhos. 

Publicado em 10/03/2014 ás 09:31

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