Terça , 20 de Fevereiro de 2018
 
Coluna de Valci Barreto
 

Bel ainda o que mais me emociona

 

Gostaria de contar, agora, umas historinhas sobre meus momentos de carnaval, dos vários carnavais que me emocionaram.
Mas fica para outro momento. Vai uma miudinha.
Vi nascer, e participei , antes do primeiro desfile, do Bloco Camaleão. Criado por amigos de infância, não tinha como ir para outro, ainda mais com os convites que sempre recebi dos Nery, notadamente de Marcelo Nery, para todas as reuniões e primeiros ensaios , festas, antes mesmo do bloco ser posto na rua. Eram reuniões simples, quarenta , cinquenta pessoas, mas sempre a presença daquele ingrediente que atrai qualquer jovem: MUITA GENTE BONITA. 
Um ou dois meses antes do primeiro desfile, que aconteceu em 1979, estava na praia do Porto da Barra , onde circulavam a propaganda boca a boca de todas as novidades da cidade, quando ouvi de grupinhos que se reuniam para a paquera, o frescobol, a torração de pele na areia da melhor praia do mundo, o boxixo que já se espalhava por toda Salvador:
-Rapaz, vai sair um novo bloco aí, que só tem mulher bonita, um tal de Camaleão.
Esta frase me encheu de orgulho pelos amigos que estavam fazendo aquilo acontecer: Marcelo, Dolfo, Quinho, irmãos, e Tinho Albuquerque, o rico da turma, mas de uma humildade e simplicidade do tamanho do mundo, que eu conhecera em Jaguaquara em um São João, na companhia dos Nery.
Dou um pulo na história do Bloco, para falar da minha relação com Bel do Chiclete.
Nuca fui, e ainda não sou, de importunar artistas, encostar neles para pedir-lhes autógrafos, falar-lhes as mesmas frases, fazer de conta ser seus amigos. Eu, me autoanalisando, não me acho tímido para uma abordagem. É que acho incomodativo para o artista , dependendo do caso, óbvio. E sempre admirei a arte, o que ele produz. A pessoa que faz a arte eu preciso conhecer como qualquer outra , em um momento que possa acontecer, para a conversa e o conhecimento surgirem de forma natural.

Morando no Garcia, era muito fácil para mim ir ver os blocos chegarem para o desfile da Av. Sete /Praça da Sé.

O Traz os Montes, de rapazes e moças da Barra, entre eles o meu amigo Carlos Najar, já muito conhecido pela alegria, gente bonita e seu inconfundível macacão, surge um dia no Campo Grande com um cantor de voz especial, cantando a música Galope. Arrepiei-me!

A voz do cantor, a banda, a sonoridade, a letra, “”o conjunto da obra” me emocionou muito. Lembro de tudo. Nunca usei drogas ilegais, mas o colorido que a emoção da musica me trazia, cantada pelo artista , eu ainda comparo com os textos e imagens que os ácidos dos hipyes tentaram repassar.

Mas o que provocava mais meus sentidos , o que batia mais forte era a voz do cantor, casando perfeitamente com aquela obra prima de letra e musica do carnaval baiano.

Passei alguns carnavais sem saber o nome do dono daquela voz, até descobri-lo em um programa de tv a respeito do nosso carnaval. Era Bel Marques.A Banda Chiclete com Banana.

Em todos os carnavais eu esperava aquela musica e aquela voz, ao lado do Teatro Castro Alves.

Em jantar oferecido pelo CAMALEAO, para comemorar a contratação do Chiclete com Banana, a qual substituiria Luiz Caldas, na Casa do Comercio, eu estava lá.

A partir de então, a Banda Chiclete e a voz de Bel ficaram bem próximas de mim em todos os carnavais e a admiração e emoção foi crescendo.

Ouvir Bel, em todo o percurso do carnaval, sem aqueles discursos da maioria dos artistas de blocos de trios, sempre foi um grande presente para as minhas emoções e lembranças.

-Foi por este amor.....”..
-E na maré ,de marco, ainda vou me lembrar de você....
-viver este amor adolescente assim como o vento vai pro mar...
O resto, sabem todos bem mais do que eu.

Por circunstancias, fiquei um ou dois anos fora do carnaval, mesmo com minhas mortalhas separadas e cobranças do velho Joaquim , pai dos criadores do Camaleão, que também saia no Bloco, apoiando, incentivando, administrando, foliando: Valci você não veio, o que foi que aconteceu? EU ME ACHAVA!!!

Ai, disse para meus amigos, um dia: olha liberem para outros meus abadás , não vou este ano.

Isto me deu um certo ar de NÃO PRECISO MAIS DE CARNAVAL, já escuto o Bel nas rádios, TV, aquela espécie de PREGUIÇA DE CARNAVAL.

Iniciaram, no curso desta historia,os ensaios do Camaleão na Contorno.

Convidado, mais uma vez para a novidade, pelo meu amigo Marcelo, disse para mim e para ele: estarei la.

Pensava eu que Bel não iria mais me provocar as emoções de antes com sua musica, pensando, erradamente: já ouvi o suficiente.

Estava lá, no camarote, ouço os primeiros acordes a Voz do Bel...e não deu outra: emoção forte pela musicalidade. Lembro de várias músicas tocadas naquele espaço.

Compartilhei , com vizinhos do mesmo camarote, a emoção que senti, relatando: pensei que a música de Bel/Chiclete não mais me tocariam tanto, demorando um pouco mais, para falar sobre este sentimento, com o casal MARA/JOAQUIM, irmã e cunhado dos Nery:

-Pessoal, eu pensava que seria apenas mais uma musica a ouvir de Bel, que não iria me emocionar como me emocionei , desde os primeiros acordes!

Fiquei feliz quando o sentimento que eu comunicava não era só meu: eles, e outros vizinhos do espaço afirmaram terem sentido a mesma reação.

Voltei, então , mais uma vez, ao Camaleão um tempo sim, outro não ,em função de algum fato impeditivo: viagem, doença em família, coisa assim.

Este ano, além de tarefas que realizo no carnaval, MONTEI MEU ESCRITÓRIO CARNAVALESCO no COSTA ESPANHA, ao lado do Clube espanhol, com minha esposa Rosangela , também camaleoa e chicleteira.

Por conta das tarefas, desisti de de algumas atrações deste carnaval, mas nao poderia ficar sem ver e ouvir, Chiclete, Bel, Ivete, Claudinha Leite, Carlinhos Brown, Neto Lx.

Da minha casa de em Ondina, segui em direção ao Costa Espanha, por uma das ruas que dão acesso ao Clube Espanhol. Descia a ladeira, exatamente quando o Bel surgia naquele espaço: a multidão me obrigou a parar. Aproveitei para prestar mais atenção ao Bel sem o Chiclete e a reação do povão se espremendo por toda a região. Foi, mais uma vez, comovente: mesmo sem o Chiclete , Bel ainda era , para mim O MELHOR DE TODOS OS CANTORES DE CARNAVAL DA BAHIA, com todo o respeito a tantos e tantos outros grandes artistas que a Bahia produz. Tenho coragem de dizer, por mim e pelas reações do publico que pude presenciar.
Prestei atenção a Ivete, Claudinha Leite, Daniela Mercury, e ao gênio , Carlinhos Brown. 
Há pessoas de brilho especial, de estrela de grandeza maior. No futebol é Pelé e Garricha; Na música , os Beatles, Frank Sinatra; no Carnaval da Bahia, por enquanto, o MEU REI AINDA É BELL.



Valci Barreto
advogado/jornalista.
Colunista da Folha do Reconcavo.








Foto: Vinny O. Reis

Publicado em 18/02/2015 ás 23:22

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