Sexta , 21 de Julho de 2017
 
Coluna de Jolivaldo Freitas
 

Chuva, chapinha e invases

Não aguento mais tanta chuva e olha que não chapinha, pois nem cabelo tenho e pingo de chuva não incomoda careca. Mas onde passo ouço as mulheres se queixando que pagaram caro pelo amansamento dos pixains e que vem lá o tal de São Pedro para bagunçar. Não aguento mais tanto engarrafamento e tanta gente perdendo casa e coisas nesta Salvador que quanto mais cai casa mais tem casa para cair. Não vou procurar saber o culpado, pois quem chegou agora não tem lá toda essa culpa.

Lembrando que as invasões surgiram em Salvador na segunda quadra dos século XX e que foi lá no Pero Vaz que os pobres coitados fincaram os primeiros madeirames e se não estou enganado o nome da invasão era Corta Braço. Posso estar enganado, mas não tive tempo de checar e se não for que a senhora e o senhor me perdoem.

Mas foi nos anos 1970 quando coincidiu o advento do Centro Industrial de Aratu com a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari e um longo período de seca na maioria dos municípios baianos que o problema da invasão se exacerbou. Do sertão baiano saíam levas e mais levas de trabalhadores em direção ao Sul do país e uma grande parte vinha par a região metropolitana em busca de trabalho.

Como havia uma razoável temporada de mercado positivo para a construção civil muitos foram aproveitados e por aqui ficaram, em ter condições de pagar uma casa ou pagar aluguel e então começaram a invadir terrenos em que ninguém sabia quem era o dono ou pertencente ao município ou terra devolutas do estado.

A partir daí não deu mais para segurar, lembrando que antes deste boom de invasões, Salvador já tinha seu famoso bairro dos Alagados, que de tão extraordinário foi motivo para músicas, filmes, literatura, pinturas e tapetes. Alagados lugar famoso no mundo inteiro, e vinha turista de longe só para ver de perto. Até que um dia Alagados foi urbanizado e hoje somente uns renitentes ainda montam palafitas que logo são derrubadas pela prefeitura.

Mas as invasões, pelo que vejo aqui em Salvador nestes tempos de tempestades e chuva que cai parecendo foz do Amazonas – não deu para citar o Veio Chico, pois o São Francisco está quase que vazio -  evoluíram. Deixaram de ser pequenos casebres para se transformarem em edifícios. Onde antigamente era uma casa de taipa, com o tempo e a família crescendo, os filhos acasalando, seu proprietários decidiram que era hora de bater uma laje. Aos domingos chamavam os amigos e vizinhos, faziam, uma feijoada com cervejada e tome bater laje, e como você sabe minha senhora, laje não gosta de andar sozinha e uma laje chama a outra e a altura da casa tem o céu com no limite. E com isso muita gente vai pro céu. Por causa do mambembe arranha-céu.

Veja o caso deste apartamento ali nas bandas dos Perambules em que era uma casinha, que foi crescendo, a prefeitura disse não construa que é esparro, mas na calada da noite o proprietário foi levantando andar por andar e hoje lá está, quase para cair. E aquele outro que o dono do terreno levantou uma porrada de andares sem nem fazer a base que aqui na Bahia chamamos de radiê (é assim que se escreve? Dê pra mim aí uma olhada no Google, nosso pai dos burros). O cara botou cimento e bloco esqueceu do aço. O prédio foi montado que nem jogo de Lego ou Playmobil. Vai encaixando para ver se dá certo. E o tempo é como menino pirracento, que passa e dá um chute no Lego que se desprende todo. Ou como se dizia antigamente, trata-se de um castelo de baralho (*nunca completei um, a última carta sempre derrubava as outras).

Bem fazia meu pai que tinha a mania de comprar terreno barato para construir casa e vender – isso quando alguém comprava e não pagava). Ele botava tanto cimento, ferro e brita que nem terremoto do Nepal derrubava. Uma vez um engenheiro disse a ele:

- Seu Jerônimo, basta metade do material.

 

E ele suave como chuva em invasão respondeu:

- Só se for pra sua mãe morar.

 

E continuou a levantar suas casas com o dobro das especificações recomendadas, coisa da natureza de quem nunca estudou Engenharia e muito menos cálculo estrutura. E nem dava para copiar na internet, coisa que em seu tempo ainda não existia.

 

Publicado em 30/05/2015 ás 10:17

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