Domingo , 19 de Novembro de 2017
 
Variedades
Publicada em 16 de Maro de 2017 ás 11:17:31

TEMPO...

Foto: Reproduo

 

O tempo passa tão depressa, ou sou eu que estou parado?

 

Por: Agostinho Costa (Poeta, graduado em Letras)

 

Debaixo do pé da laranjeira vejo a banda passar. Crianças correndo alvoraçadas à procura de um bom lugar para assistir ao espetáculo, e eu aqui sentado como se o tempo estacionasse. Olho minha infância perdida, queria voltar no tempo para poder correr atrás das bandas de fanfarras e do bumba-meu-boi, só assim, seria feliz. Não sou feliz! Sou fruto de uma laranjeira cansada, que, não mais suportando o passar do tempo, não dá mais flores e nem frutos. Sou uma fruta sem cheiro sem sabor, sou uma fruta peca. Sou assim! Não sei se culpo o tempo ou a laranjeira, ou até mesmo eu, por não ter coragem de me levantar e correr atrás da banda, como fazem os outros frutos.

Fico aqui sozinho por não acreditar que posso dar sabor. Sou um fruto medíocre dentro de muitos outros frutos medíocres. Os cães ladram, e nada faço. Borboletas voam ao meu redor, e eu aqui sentado, folhas caem sobre mim, agradeço por cobrir minhas vergonhas e fraquezas.

Com essa introdução nada peculiar, trago hoje APENAS UM OLHAR para um tema nada fácil de abordar: O TEMPO...

Vivo num estágio que o tenho como inimigo mortal, não consigo realizar nada porque ele foge de mim. A vida passa tão depressa que só consigo enxergar as sobras e rastros que meu corpo deixou pelo caminho. Às vezes ao olhar, percebo que estou estagnado, criando raízes, me esvaindo com areia nas mãos de uma criança. Estou confuso! Não tenho forças para recuperar o tempo perdido, por mais que corra não saio do lugar. A cada momento o tempo passa mais depressa, ou sou eu que nessa inércia que não tomo nenhum tipo de atitude, só me resta continuar sentado debaixo dessa laranjeira. 

As folhas caem, os carros passam, as crianças correm, o tempo voa, a vida passa por mim se arrastando como uma lesma, tudo passa. Queria tanto voltar no tempo e beijar a face do meu pai, há, como queria!!! Queria dizer o quanto o amei, o quanto sofri quando o vi dormindo. Queria tanto me resumir em um eu te amo para ele, mas, minha boca seca e sem cor calou-se pelo silêncio de um súbito adeus.Olho para laranjeira e não vejo frutos, o tempo passa, o tempo passou.

Quem me dera ter tempo para abraçar meus amigos, dizê-los o quanto os amo, porém, não tenho tempo. Se tenho, não sei aproveitá-lo. Olho e só vejo estrada vazia, o silêncio a mim rodear. Percebo que não tive tempo de amar, de ser amado, de esperar o meu amor como fez Penélope, de me permitir coisas novas, sonhar com os amanheceres de verão, sentir o ovário das madrugadas frias, aproveitar o tempo.

Falo, reclamo, choro, e o tempo passa sorrindo e me dando tchau. Não consigo ver graça em nada. Uma ambulância dobra a esquina em alta velocidade levando uma mãe para dá à luz, é o tempo se renovando, as coisas evoluindo, as oportunidades chegando e a canseira me invadindo.

Vejo sombras me cercando, fico confuso, não mais assimilo as coisas, ouço vozes gritando: Levanta...levanta... aproveita o tempo...corre, ele está passando rápido, todavia, pode lhe esperar. Confuso, prefiro continuar assombrado, porém, sentado. Chego até pensar em levantar, tomar uma atitude, mas, me faltam as forças, tudo me cansa, a vida cansa, o tempo cansa.

Num ato súbito a laranjeira cai sobre mim, trazendo consigo todo rancor de uma vida, sem coragem de mudar, sem brilho, sem frutos, sem flores, só o peso do tempo. Então, ali sentado dou os meus últimos suspiros, só lembro que não falei eu te amo para os meus amores, me faltou tempo. O tempo se aproxima de mim e fecha os meus olhos, parto com o coração sangrando por não saber aproveitar todo tempo que passou por mim.

 

 

 

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